Retornar e voar… ou não!

Retornar e voar… ou não!

Por Susana Nunes

Na crónica passada, antecipei a narração dos meus primórdios nas corridas, contudo não será ainda nesta que relatarei esse início. O fim do ano é dado à nostalgia e à rememoração, porém, prefiro falar sobre o hoje. Não o hoje em termos filosófico-metafóricos, mas o hoje referente ao dia de hoje – o dia em que corri a acreditar que posso voltar aos 10 km sem:

a) morrer nos 5 kms iniciais, 
b) demorar mais tempo do que a pandemia está a demorar a ir embora.

Para que esta manhã fosse tão feliz, foi importante o processo de mentalização – a mentalização para sair da cama antes das 12h00 a um domingo de manhã; a mentalização para enfrentar o frio; a mentalização para enfrentar o armário e escolher a roupa adequada; a mentalização para… já perceberam, não é?

Os primeiros 4 kms foram penosos, como sempre, em que a vontade de desistir luta ferverosamente com a vontade de cumprir o objetivo. Aos 6,5 km, a certeza de que era capaz de correr 10 kms, embora com um ritmo terrível, deu-me um alento maravilhoso que só foi quebrado pelo reiniciar do cronómetro no relógio, que apontava para uns meros 2,5 km, o que me fez suar de raiva.

Contas feitas, foram quase 9 kms, seguidos de uns maravilhosos 7,5 kms de caminhada em passo acelerado em busca da cerveja refrescante antes do recolher obrigatório, enfrentando um nevoeiro cerrado, que tornava a demanda ainda mais gratificante.

Enquanto corria e pensava no meu retorno, foi impossível não pensar na comovente e dura narrativa de Dulce Maria Cardoso – O Retorno. É um retorno hostil este, em que mais de meio milhão de pessoas regressam à metrópole e são olhadas com desconfiança, sentindo-se estrangeiras no seu país. A segregação e a falta de empatia pautam esta obra que relembra os tempos instáveis do pós-25 de abril: «Acreditam que os pretos nos puseram de lá para fora porque os explorámos, perdemos tudo mas a culpa foi nossa e não merecemos estar aqui num hotel de cinco estrelas a sermos servidos como éramos lá. Os empregados preferem servir os pretos que nem nos talheres sabem pegar a servi-nos a nós, acham que os pretos são vítimas que ao fim de cinco séculos de opressão ainda tiveram de fugir da guerra (CARDOSO, 2012, pp. 91-92).

Foi bem mais tranquilo o meu retorno à estrada, não para voar, é verdade, mas para acabar com um sorriso nos lábios enquanto bebia uma Sagres (é verdade, nem tudo foi perfeito!) e era olhada com surpresa por quem fazia o seu passeio dominical.

Dulce Maria Cardoso, O Retorno. Tinta da China. 2012