Efeméride Épica

Efeméride Épica

Faz hoje, dia 3 de fevereiro de 2021, precisamente um mês desde que foi batida a mítica barreira que há anos me atormentava. 

Sim, corri pela primeira vez os 10 km abaixo dos 45 minutos! 

Quase consigo escutar as locuções interjetivas que neste momento estão a proferir, mas são 44 minutos e 23 segundos de incrível realidade. Em boa verdade, numa meia maratona de Lisboa, há uns anos, corri a mesma distância abaixo dos 43 minutos mas só quem desconhece a descida para Alcântara pode pensar que conseguiria travar após a iniciar. “Sai da frente, Guedes!” 

Na altura, a emoção (e as imperiais ingeridas rapidamente antes da hora de encerramento do café) tomou conta de mim e, por isso, só agora vou descrever, em primeira mão, tudo o que rodeou o grandioso feito. 

No fim de semana anterior, ainda com o Natal a fazer-se notar no meu corpo, corri as São Silvestres do Porto e Lisboa (como podem ler aqui) e fiquei com a sensação de que seria à Sporting – “Para o ano é que é”! E, surpresa das surpresas, não é que foi mesmo? 

Logo ao terceiro dia desta nova volta ao sol, recebida ao som de Joe Dassin, em vez da habitual e desenfreada algazarra, regada que foi por um belo espumante (cujo único defeito é evaporar-se rapidamente), adoçada por um “taramisu” sem par e após dois dias passados a desafiar os sentidos com diversos vinhos e enchidos (e queijos, vá) somente para perceber se mantínhamos o odor e o paladar, não fosse o “bicho” tecê-las, declarei solenemente que iria fazer pela manhã desse domingo a Corrida Virtual de Ano Novo da Revista Pro Runners Magazine!  

O olhar estupefacto da miúda disse tudo! 

Com a vontade de um banqueiro em dar explicações sobre uma qualquer operação ruinosa, decidi que o melhor seria sofrer durante o menor tempo possível e, assim, iria na loucura! A lógica de pensamento foi que, se correr bem (muito improvável, mas o sonho comanda a vida), despacho aquilo rapidamente e se correr mal, abrando e o sofrimento será menor! 

Iniciei a prova na minha “pista” de treino e o primeiro grande incentivo foi-me dado por um cão de que tive de fugir, o que me obrigou a acelerar e, de que maneira, o passo (devia tê-lo convidado para uma jola no final). Depois de me livrar desse treinador improvisado, olhei para o relógio e percebi que o ritmo era suscetível de provocar uma alteração na tabela das melhores marcas mundiais de todos os tempos de um gajo vestido de amarelo, na reta entre Cacilhas e a Cova da Piedade, às 11 da manhã de um domingo, dia 3 de janeiro. 

Com todo este cenário montado, foi-me impossível arranjar uma boa desculpa para refrear a passada e, tal como um cavalo (no que a suar diz respeito), ataquei a fundo os km que ainda restavam! 

E eram tantos… 

As caras estupefactas dos atletas com que me ia cruzando motivaram-me ainda mais (a frio, percebi que provavelmente estariam horrorizados pelo sofrimento que transmitia) e cheguei ao último km com a sensação de que iria bater o meu melhor tempo na distância de 10 km. 

O grito do final, além de assustar um pobre casal que conversava tranquilamente, foi realmente libertador. 

E agora vou atacar os 42 minutos (logo vejo em quantos km!)