A São Silvestre de Lisboa corrida junto ao rio Douro, a do Porto à beira Tejo, o efeito Manoel de Oliveira, os fritos natalícios e as provocações do (outro) Gajo

A São Silvestre de Lisboa corrida junto ao rio Douro, a do Porto à beira Tejo, o efeito Manoel de Oliveira, os fritos natalícios e as provocações do (outro) Gajo

Por Nino Raleiras

A São Silvestre de Lisboa corrida junto ao rio Douro, a do Porto à beira Tejo, o efeito Manoel de Oliveira, os fritos natalícios e as provocações do (outro) Gajo 

E quando achamos que neste ano nada mais pode acontecer, eis que o gajo corre as São Silvestre das duas maiores cidades do país em dois dias seguidos.

Convém atentar nas datas – 26 e 27 de dezembro – para se perceber que as gotas de suor cheiravam a azevias e a licores caseiros cuja receita há muito se perdeu.

Iniciei a demanda pela corrida que costuma entupir as ruas da capital no sábado seguinte ao Natal, a estragar a vida a quem procurava trocar as meias e os pijamas oferecidos com tanto carinho.

Como é habitual na São Silvestre alfacinha, após uma ligeira descida, encontramos o rio, só que, neste caso, foi o Douro e na margem contrária a cidade era a de Gaia e não a de Almada.

Enfim, se, como se costuma dizer, o Natal é quando um homem quiser, este ano ensinou-nos também que a São Silvestre se corre onde calhar.

Quando corremos no meio de milhares de pessoas, mais que não seja pelas pisadelas nos calcanhares que vamos levando, o melhor é acelerar o passo. Aliás, isso conjugado com a vontade de evitar as filas para a ginginha são os segredos para que tantos recordes sejam batidos ano após ano. Assim, a ilusão de uma marca histórica foi adiada por mais um ano, tal e qual a tão falada recuperação económica, “portantos”.

Mas nada se compara à falta que senti dos delirantes gritos de quem procura a todo o custo fotografar o seu ente querido numa pose digna da elegância de Fernando Mamede, tentando ultrapassar o facto de a t-shirt dois números abaixo (porque afinal não emagreceu) lhe ficar tão ridícula.

Num ambiente tão tranquilo, senti-me num filme do mestre Manoel de Oliveira, apreciando a luta de um homem para pescar uma tainha, a felicidade dos patos que nadavam ao sol e nem esbocei reação quando um lingrinhas do Triatlo passou por mim em tal velocidade que só podia estar atrasado para o almoço em casa dos sogros.

Só naquela, ou porque nem conseguia ter força para parar o relógio, ainda corri mais cem longuíssimos metros para acabar no “tempo classe mundial após comer tanto cabrito e roupa velha” de 46:43.

Contudo, antes do merecido prémio de cevada, ainda penei a apoiar a lutadora miúda no seu último km e confesso que a alegria no final se deveu, em grande parte, ao descanso que, finalmente, iria dar aos meus pés.

– Então, e amanhã, a que horas corres a São Silvestre do Porto?

(É favor bater com força na testa para perceber a veemência do som) C´um carago, já nem me lembrava dessa!!

E do dia seguinte pouco mais há para contar do que a ultrapassagem a três ciclistas (dois deles terem menos de cinco anos nunca pode ser encarado como desculpa), o susto quando uma rapariga, após sair de um café em Gaia, diz a um rapaz para lá se dirigir que “estava a haver guerra” e a ameaça de chuva que em muito condicionou o meu tempo final – 45:14 – que isto não está para gripes.

Quase ao mesmo tempo que isto tudo acontecia e porque o Gajo é um pouco como Deus, está em todo o lado, as mesmas São Silvestre eram igualmente disputadas junto ao Tejo. E o termo é mesmo esse, disputadas, porque o Gajo nº1, chamemos-lhe assim, decidiu picar o gajo nº2 (se bem que, na verdade, são o mesmo, mas, depois de tanta cerveja no final das provas, já não se sabe bem quem é quem nem onde se está, mas adiante). 

A de Lisboa correu-se ali bem perto do sítio do costume, entre o Jamor e Belém, numa corrida que era suposto ser calma, não fossem os 46:43 que o meu alter-ego já me tinha enviado sei lá de onde, via whatsapp. Já lhe digo como é… 

Na verdade, nem me lembro muito bem como correu, só do sofrimento, pois era um daqueles dias em que não apetecia mesmo, mas mesmo nada correr, mas pronto, os 46:03 até ajudaram a amenizar a coisa… não, não ajudaram. O pior foi mesmo o empregado da esplanada, que, no final da “prova”, me informou que havia tantos pedidos à minha frente que só poderia satisfazer o meu dentro de meia-hora. E se for ao balcão? “Isso é mais rápido”, respondeu. Estafado, transpirado e com ar de gato das botas lá me arrastei até ao dito, para implorar por uma imperial. “É para cumprir a tradição da São Silvestre”, expliquei, perante um condescendente revirar de olhos.

No domingo, acordo, já tarde, com outro SMS do Gajo (meu, portanto), a vangloriar-se de uns impossíveis 45:14, quando, na verdade, já tinha assumido que a São Silvestre do Porto era apenas para cumprir calendário. Pior ainda, domingo já era dia de confinamento em Lisboa, embora não em Oeiras, onde o paredão no qual tinha pensado rolar estava cheio de gente (nem sempre com o devido distanciamento social) em busca de um fugaz raio de sol. 

A solução passou mesmo por correr junto à marginal, onde, embalado pelos carros e pela provocação, despachei os primeiros cinco km a menos de 4:20. Uma loucura que custou horrores no regresso, como bem ouviram os desgraçados de uns pescadores, ali algures entre Caxias e Paço de Arcos, que até iam caindo das rochas ao ouvirem-me praguejar um chorrilho de alhadas. Mas nada foi tão difícil como a chegada a Santo Amaro, onde, com a euforia de ter conseguido (ainda hoje não sei como) igualar o tempo do meu alter-ego, me esqueci de parar o relógio, impossibilitando assim a prova documental do feito. Mesmo assim, ficou para a história um honroso tempo de 45:22, bem como algumas dezenas de metros a mais que os 10 km oficiais. 

Já na esplanada, que é sempre o momento mais alto das provas, até nas virtuais, tudo correu melhor. O serviço foi desta vez rápido e até havia uma mesa só para mim, onde pude finalmente gozar de um merecido fino (estava na São Silvestre do Porto, é bom não esquecer) com vista para o Douro, perdão, para o Tejo…